sexta-feira, 4 de abril de 2008

Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite


No último sábado, entrei em luta corporal com um sujeito que nunca vi na vida...

Ele queria meu celular... Terminei no chão, com as costas raladas, um dedo inchado (acho que meio destroncado), o celular firme nas mãos, mas ele levou a minha bolsa... Com um monte de nada, que significam muito pra mim...
Lá, além das burocracias práticas da vida..rs Tipo cartões, documentos e um batom lindo que ganhei de aniversário... Estava uma série de coisas que ajudavam a contar um pouco da minha história... Minha identidade com foto com cara de criança (tirei quando tinha 14 anos, mas troquei a foto por uma de 17...rs) Minha carteirinha do plano de saúde, que indica que agora sou apoiada por uma instituição que me dá dignidade médica em troca dos meus serviços, meu Riocard que paga a fortuna que é ir e voltar de Caxias para a Barra todos os dias, e um cartão de crédito com o qual pretendia viajar no feriadão da Semana Santa.Tudo isso, na verdade, é uma grande bobagem diante da violência que é você ser abordada por um estranho que de uma hora pra outra quer algo seu custe o que custar..

Depois que ele finalmente carregou a minha bolsa, saí andando feito louca, sem destino, chorando, querendo que alguém corresse atrás do meu prejuízo...Parei em frente a um puteiro que tem aqui em Caxias (sim, o assalto se deu em minha cidade sede), e comecei a perguntar, entre lágrimas, a alguns homens que se encontravam na porta, se havia alguma patrulhinha que fizesse ronda por ali... Recebi como resposta que não, mas eles quiseram saber o que havia acontecido pra eu estar daquele jeito. Contei que havia sido assaltada num ponto de ônibus a menos de 20 metros dali, e imediatamente eles chamaram um tal de Bruno (o segurança do estabelecimento). Contaram a ele o que havia acontecido, e terminaram com um “Olha aí, isso não pode acontecer não....” Bruno ouviu o relato e encerrou perguntando a um amigo: “E aí, vamos ali comigo resolver essa parada?”. O amigo topou e Bruno me convocou a entrar no carro com eles para fazer uma ronda pelas imediações e achar o meu assaltante... Sem pensar muito, entrei no carro (afinal, queria justiça... que alguém comprasse o meu barulho...), comecei a descrever mais ou menos o sujeito que tinha me atacado, e a responder se era ou não o cara que a gente estava procurando a cada neguinho/mulato/quase-branco ou quase-preto que passava pela gente na rua... “Não, não é ele...”. Minha ficha só começou a cair, quando o amigo do Bruno perguntou a ele:

- E a parada, já está na agulha?
- Já.

Ou seja, além de ser assaltada, presenciaria e seria a mandante indireta de um assassinato no meu sábado à noite... Tudo isso por causa de um monte de bobagens que até significam alguma coisa pra mim...
Por sorte, não achamos o cara que me roubou. Voltamos ao ponto de partida, e o Bruno, muito gentil, ainda se dispôs a me levar em casa (comecei a ficar bolada com aquele papo de matador/leão-de-chácara saber onde eu moro), e disse que morava ali perto, mas que antes precisava passar na delegacia pra fazer meu registro de ocorrência.
O amigo do Bruno o incentivou a me deixar no local onde ficam os homens da lei, já que havia sido assaltada e não tinha dinheiro nem pra passagem do ônibus.Nessa hora, comecei a chorar pela violência, de raiva, por estar ali sendo alvo da bondade de dois estranhos (mesmo que eles não fossem bonzinhos), pelas minhas costas que começavam a arder, e por começar a pensar no trabalhão que ia dar cancelar aquele monte de bobagem e tirar outras novas.
- Chora não, colega. Você viu que a gente tentou pegar ele pra você – Disse o amigo do Bruno.
- Não, eu sei, eu sei... Tranqüilo, vocês foram supergente boa - respondi.

-Estou com pena das minhas coisas que foram levadas.
- Você ia ficar com pena é do cara se a gente tivesse pegado ele.

Silêncio.
Na delegacia:
- Profissão?
- Jornalista.

-Ah, minha filha, você tem que fazer uma matéria sobre Caxias. Isso aqui está terrível.
- É... Eu sei.

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