quinta-feira, 4 de junho de 2009

A Velha Contrabandista

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega - tudo malandro velho - começou a desconfiar da velhinha.

Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

- É areia!

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.

Mas o fiscal desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40 anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

- Mas no saco só tem areia! - insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

- O senhor promete que não "espaia"? - quis saber a velhinha.

- Juro - respondeu o fiscal.

- É lambreta.

***
Li esse conto de Stanislaw Ponte Preta pela primeira vez quando estava na quinta série. Ele fazia parte de uma das lições do meu livro de português. Nunca mais esqueci. Eis que me lembrei dele esses dias porque estou vivendo uma situação assim. Tenho certeza que estou diante de um contrabandista, só não consegui identificar o produto do contrabando. Amigos mais chegados irão dizer que é a minha velha mania de ser pé atrás, de desconfiar de tudo.. pode até ser, mas prudência e canja de galinha nunca fizeram mal à ninguém. E depois, se me contar qual é o contrabando, deixo passar todo dia na alfândega(risos).

7 comentários:

Bibi disse...

Pezinha pra frente, pezinho pra trás

rabino disse...

Vendo cada coisa bacana pelo módico preço de uma contribuição de seu sorriso...

Eliane Santos disse...

Só sua presença aqui já me alegra, Rabino.. sempre...
bjs

Unknown disse...

Talvez o contrabandista queira roubar o seu tempo, a sua atenção e a sua energia. Então, seja mais esperta que o fiscal: em vez de parar a velhinha todo dia e esvaziar sempre o mesmo saco de areia (e ainda, passar o resto do dia pensando o que ela está fazendo de verdade), observe-a de longe quando ela passar, sem blitz ou discussões, e você logo reconhecerá que a lambreta muda de cor todos os dias... e a areia não.

Beijoo

Eliane Santos disse...

Mari, que bom tê-la por aqui.. juro que adoraria que o contrabandista roubasse apenas meu tempo e atenção, mas, infelizmente, são anos e anos de fiscalizãção... a gente não se engana... infelizmente, ainda não.

Unknown disse...

Ah amiga, na hora da raiva a gte só vê a areia... depois que acalma um pouco é que a gte vê a lambreta...

Eliane Santos disse...

Pois é.. já tô vendo areia, lambreta e demais contravenções.. olhar clínico, Mari... olhar clínico